Todos os dias, eu acordo, dou bom dia aos meus filhos –
quando meu primogênito não me acorda antes disso. Recebo um especial da minha
mais nova, que dia após dia vem até à janela que se abre, com pulos e sorrisos.
Faço carinho, dou comida e água, limpo cocô. Dou banho, lavo as roupas e
cobertas, providencio as vacinas e
remédios para manter a saúde de todos.
Cada filh@ tem sua peculiariadade: há aquele que fica
tentando subir onde não deve e não se contenta com a comida que ganha, sempre
quer mais; há aquela que faz as necessidades onde não deve, mas é carinhosa de
uma forma que nunca vi igual; e há aquela que já aprontou muito em sua infância
e, hoje, já uma jovem adulta, ainda come o que não deve e me pede proteção
quando sente medo. Mas filhos são assim! Eles não são como nós queremos, eles
são únicos e crescem para ser parte do que a gente ensina e outra parte que é
própria deles, a qual não temos e nem devemos ter controle. O amor, nos altos e
baixos, é sempre incondicional! É aquele olhar que encanta e, por vezes, impede
a repreensão. É o carinho e a felicidade com a qual me recepcionam sempre que
chego, contagiando e me fazendo deixar pra lá o que quer que me incomodava logo
antes de abrir a porta. É a companhia que preenche a casa e o coração.
Além disso, todos os dias, acompanho e cuido de toda a outra
parte da família: as minhas já incontáveis plantas. É fascinantes vê-las
evoluírem! E saber que é o meu cuidado que as deixa viçosas, que as fazem
florescer e crescer saudáveis. Confesso que ainda estou tentando me acostumar
com seus ciclos de vida, com o fato de que há momentos em que ficam tímidas,
caidinhas e precisam ser podadas. Mas a verdade é que o que deixam para trás só
lhes dá ainda mais força, pois elas são os seres mais conscientes a respeito
deste ciclo: quando parecem que estão definhando e que a morte virá, elas
absorvem a força da terra e renascem ainda mais lindas! Exemplo que devo seguir
em minha própria vida: é tudo um ciclo, nada é permanente.
O que é permanente é o instinto materno que tenho em mim
desde não sei ao certo quando. Lembro de amigas começarem a me chamar de mãe,
devido à forma que eu as tratava – cuidando e repreendendo. Mas o cuidado
sempre esteve presente, como segurar o braço ao atravessar a rua, algo que faço
até hoje com quem quer que esteja ao meu lado, como reflexo, como preocupação
pela segurança.
E o que falar daqueles seres indefesos, necessitados? Eu já
gerei uma vida! Acolhi em meu ventre, como uma filha, uma vidinha que estava se
esvaindo frente aos meus olhos, abandonada para morte, debilitada, doente,
desacreditada, Renegada. “Essa aí não tem jeito”, eu ouvi. Mas meu coração de mãe não
aceitou, ele cuidou, cuidou, deu amor, carinho e tudo o mais, até que esta
vidinha renasceu no meu mundo, para a surpresa de todos, inclusive minha, além
de meu orgulho em ter aquele ser como meu, minha filha! Não compartilhamos
sangue, nem língua, nem raça, mas somos mãe e filha. E tanto o amor quanto a
gratidão são mútuos. Ela foi a primeira a me fazer realizar como mãe. Depois
disso, vieram muitos outros seres que passaram pelo meu zelo materno. Até que a
minha percepção evoluiu de uma forma que me vejo como mãe do mundo: mãe de mim
mesma – me cuido como ninguém nunca fez igual, dos meus amigos, da minha
família, dos meus colegas de trabalho, das pessoas que passam pelo meu caminho.
Sinto que devo a elas a minha contribuição, o meu carinho, o meu cuidado, a
minha preocupação, mesmo que, por vezes, seja aquela mãe chata, que fala o que
não querem ouvir, ou melhor ainda, aquela mãe cheia de empatia que sabe medir
as palavras e compreender como ninguém. Não serei humilde neste ponto. Passei a
me colocar no lugar das pessoas e consegui dar o colo que precisavam, ser a
ouvinte quando necessário e a conselheira quando solicitada. Levou tempo, mas
aprendi que ouvir é muito mais importante do que falar nessas horas. E ainda
tenho a aprender neste ponto – nós sempre temos mais a aprender.
Eu digo que não quero ter (outros) filhos, e a maioria me julga, como
se não fosse cumprir meu papel de mulher ou deixar minhas raízes. Sei que meu
papel no mundo está muito acima do que procriar, literalmente gerar um filho em
meu ventre. Sei que minhas raízes não precisam necessariamente ser os filhos
que a sociedade fala – o meu legado está acima disso! E quando digo que quero
adotar uma criança ou adolescente? Aí o assunto é ainda mais polêmico, mesmo
que quem me ouça diga que é um gesto bonito, ou me digam com todas as palavras
que isso é arranjar um problema. Mas quem tem um coração grande o suficiente
pra abrigar tantos filhos os quais não registrou na certidão? Eu tenho um. E
sempre cabe mais. Por vezes, ele briga com minha razão, que sabe o quanto é
difícil economicamente acolher um outro ser, mais dos que já acolhi. Mas ele
sonha alto! Não perderá a esperança e a crença no mundo, de que todos somos um,
interligados pela mãe natureza que vive dentro de nós, não só fora. E eu me
conecto, e a conexão é divina! Não há palavras suficientes para explicar o que é
se sentir conectado ao mundo: às pessoas, à fauna, à flora, ao espírito. É
elevação, é leveza, é amor. Tudo é amor. E o meu está em ti. E ele é infinito.
A marca de mãe que carrego em mim: a línea nigra ou
linha Alba, que aparece em mulheres durante a gravidez. A minha sempre esteve
aqui para que chegasse o dia de hoje, eu me olhasse no espelho e tivesse a
epifania do que é a minha vida. Sou mãe e sempre serei!
